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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Converse com um mendigo!





por Márcio Duarte

Procurando pela internet achamos diversas listas de coisas pra se fazer antes de morrer. Apesar da morbidade em associar objetivos de vida a uma corrida de tempo contra a senhora-de-todas-as-horas, Dona Morte, não pudemos deixar de notar a falta de criatividade na seleção de itens que se repetem, e repetem e repetem...

Algo que não condiz com a vida contemporânea, dinâmica, cheia de choques culturais, misérias à flor da pele e profecias em neon de reveillón a reveillón. Inspirado por esse mosaico de ano novo que é o Rio de Janeiro, trazemos a todos um inusitado acréscimo às listas pré-morte que podem dar uma sensação de sentido à vida dos que procuram objetivos para suas existências por meio da virtualidade. Eis nossa primeira dica:

  1. Converse com um mendigo.

Mas como assim? O que há de tão especial sobre essas pobres criaturas semi-humanas que servem de fogueira de São João fora de época para entreter a juventude do Brasil? Aí que está, meu caro amigo: você será presenteado com a luz do conhecimento! Poderá descobrir que até esses seres tão estranhos, apesar de cada vez mais presentes em nossas vidas, são – acreditem se quiser – humanos! E são bons contadores de histórias também.

Quando digo conversar, é preciso esclarecer, quero dizer realmente parar pra ouvir o que eles tem a dizer, sua história. É claro que não estou pedindo que aborde aleatoriamente qualquer morador de rua como se fosse uma corrida pokemon, gotta catch ´em all; mas, com certeza, a oportunidade irá surgir (se é que já não houve) em algum momento da sua breve existência.

Um dos pontos fortes dessa empreitada é a relativização do que se entende por louco. Todos sabemos que disso todos temos um pouco, mas será esse o motivo de alguém optar por viver sob o teto celeste servindo de saco de pancadas da vida (às vezes, literalmente)? Poucas foram as vezes que tive a oportunidade de me engajar em tais conversações e pude ver a riqueza de conteúdo para os amantes da literatura nos relatos dessas pessoas. Desde juras de vingança, abandonos, traições a fugas de morte certa; encontra-se de tudo nesse habitat Bukowskiano. E o que se ganha com isso tudo? Bom, aí cada um há de dizer... pode não ser praticamente nada, uma ponta de tristeza em cada alma ou a certeza de que o que já temos é extremamente valioso. Enfim, esteja pronto também para doar o que há de mais precioso em retorno: você mesmo; pois pra quem não tem nada, a própria memória é o maior tesouro.




8 comentários:

  1. Vou agora mesmo abordar um indigente aqui na rua e bater um papo com ele. Se meu raciocínio não estiver errado, este item também pode ser usado com um idoso ou idosa, que por muitas vezes são maltratados, desprezados, mas que guardam muitas histórias e muito conhecimento na memória.

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  2. Olha... a gente tem muita coisa pra aprender com os moradores de rua, viu! Eu já tive a oportunidade de conversar com vários, por diversas vezes... e até fiquei "amiga" de alguns.

    Uns demonstram uma imensa nostalgia pelo passado, falam de suas mulheres que os abandonaram porque eles bebiam demais, outros contam histórias de quando era advogados (sim, para o espanto geral da nação, SIM!)... é incrível como são livres do mundo e presos em seus próprios pensamentos e emoções!

    Ótimo post!

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  3. Imagino que a experiência enriqueça muito mesmo a forma de enxergar a realidade. No ano passado visitei um lar de idosos, tive a permissão de falar com 3 apenas, mas suas histórias me comoveu e me ensinou muitas coisas. Até ousaria elencar como uma das 1006 coisas a se fazer antes de morrer...

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  4. Sensacional! O texto e a dica! Eu nunca tive a oportunidade de conversar com um mendigo, mas uma amiga trabalhou ao lado de um albergue. Ela me conta várias histórias das amizades que fez por lá. Certamente é uma experiência única e uma surpresa sem igual. E quanto ao caso do Índio Galdino, em 1997 eu era muito nova e por isso não me lembro desse caso. Extremamente chocante e revoltante. Assim que li, lembrei da história da doméstica que foi agredida por jovens, confundida com uma prostituta. Acho que esses casos mostram a mediocridade dos jovens e, mais revoltante ainda, a insignificância da vida, do ser humano e do respeito com o próximo.

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  5. Viver a vida na rua deve trazer histórias realmente incríveis, eu já pensei sobre isso, não que eu queria morar na rua...rs Mas nunca pensei em conversar com um mendigo, mas é realmente uma boa idéia, não só com um mendigo, mas também com o carinha que senta do lado no banco de ônibus, a mulher do caixa no mercado, isso é ser mais humano...

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  6. Em uma das muitas conversas que eu tive com moradores de rua, a mais impressionante foi com um guri...
    Tinha mais ou menos 10 anos e pedia dinheiro para comprar comida.
    Eu disse que não daria o dinheiro, que pagaria o lanche. Como estava perto do almoço sentei com o moleque para comer.
    Ele muito sem graça por estar sujo em um restaurante (fast-food), sentou ao meu lado e começou a, literalmente, devorar a refeição.
    Conversamos sobre muitas coisas, mas a resposta mais interessante foi quando eu o questionei sobre o frio, como eles se mantinham aquecidos no frio... A resposta me encheu os olhos: A gente se urina e se abraça, dona.

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  7. Já recebi uma dessas "listas".. e confesso que senti vergonha de ter encaminhado "aquilo" agora que acabei de ler teu texto... Sem muitas delongas, você foi certeiro...
    Sucesso! ^^/

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