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sábado, 15 de janeiro de 2011

Imprensa marrom - entre tragédias naturais e sociais

por Márcio Duarte

Mais uma tragédia natural. Centenas de mortos sob as lentes da verdade que demandam sangue de poderosos para lavar a alma dos sedentos por justiça e filhos pródigos da indignação. Do outro lado, famílias que perderam quase tudo, outras que não tiveram tanta sorte. Suas esperanças ficam à revelia dos laços familiares e doações anônimas.
Imagens exclusivas mostram o resgate inesperado de uma idosa; capas virtuais dos jornais que até poucas semanas incitavam a violência, guerra e a discórdia, tentam sensibilizar o leitor com reportagens sinceras, cheias de sangue e lama. Marrom, essa é a cor da responsabilidade social que inunda os meios de comunicação em massa.

Complexo do Alemão “pacificado” não é mais notícia. Enchentes, corpos enterrados, sangue escorrido pros lençóis freáticos do ostracismo, avalanche de novas tragédias à frente. Que a grande mídia (e também pequena, por que não?) vive do oportunismo, isso é lugar comum; o que não pode cair na aceitação é a extrapolação dessa ética do encobertamento de manobras políticas que afetam a vida de milhares de pessoas (até agora, menos... 600, segundo dados oficiais).

Todos sabemos da influência da mídia nas nossas vidas, as esferas de poder, também. Manter uma boa relação com quem pode tanto te levar aos céus como te crucificar em praça pública com a população aplaudindo é uma das preocupações capitais dos governantes de uma democracia delegativa ou república das bananas. A influência na opinião pública é tamanha que a esquizofrenia assume proporções globais. Esse roteiro surgiu daqui.

Pode-se aceitar vidas em troca de influência num circuito fechado onde as almas arrematadas são reaproveitadas numa outra ponta do negócio: a espetacularização da miséria. Parece que os princípios da sustentabilidade estão muito bem fundamentados nos grandes editoriais; recicla-se de tudo. Da própria desgraça que ajudam a criar, surge o combustível do motor para toda a engrenagem. E a quem cabem os dividendos? À consciência dos notáveis, virtuosos da solidariedade; ao público ainda comovido pela novela da vida real, onde o vilão é a própria cegueira, a passividade nos tempos de paz que se paga com sacrifício nos tempos de desespero.


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5 comentários:

  1. é de dar nojo...
    no ano passado, eu perdi uma amiga na tragédia de Ilha Grande... eu me pergunto se eles passassem por uma situaçao dessas, se eles mudariam essa atitude desumana.

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  2. É interessante notar como, além da mídia se alimentar das tragédias, faz disso um processo cíclico. Ano passado tivemos tragédias em Angra dos Reis e Niterói, esse ano na Região Serrana. Os cenários são diferentes, mas a glamourização do desastre é o mesmo: repórteres fazendo entrevistas inócuas com desabrigados chorosos, com perguntas no mínimo imbecis pra quem estudou durante tanto tempo para exercer uma profissão como a de jornalista ("Como você está se sentindo? E agora, é recomeçar tudo de novo? E então, quantas pessoas da sua família morreram?"). Fazem das pessoas estatísticas e dos mortos um simples caso de jornal. Entopem nossa cabeça com endereços de postos de coleta de doações e das formas com que podemos ajudar, fazendo com que até mesmo nos sintamos culpados por nosso privilégio de não termos sido afetados pela tragédia e delegando ao povo responsabilidades que deveriam ser mediadas pelo Estado. Chamam-se voluntários e o dinheiro público continua sendo desviado para as mansões e as festas de nossos governantes, como uma Versalhes do século XXI.

    Ótimo texto, bastante questionador e reflexivo. Parabéns.

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  3. É uma hipocrisia esse conglomerado pedindo que as pessoas sejam solidárias, é muito cômodo para eles depois de embolsar o dinheiro que poderia ter evitado parte da tragédia ainda lucram com suas machetes escandalosas que epetacularizam a desgraça alheia.

    Lastimével

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  4. Gostei do Post! Já pensou em divulgar também no www.plik.com.br ?

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